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  <title>Nostr notes by Outras Palavras</title>
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      Crédito: Peter Dazeley/Getty ImagesO Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (ONDAS) realizou uma investigação sobre a Sabesp após sua privatização em julho de 2024, em que identificou uma forte elevação dos lucros acompanhada de expressiva redução de custos operacionais da empresa, especialmente do custo de pessoal. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Como se deduz do quadro a seguir, o lucro líquido médio anual da Sabesp no triênio 2021–2023, antes da privatização, foi de R$ 3,4 bilhões. No biênio 2024-2025, após a venda do controle acionário pelo estado de São Paulo, o lucro líquido médio anual saltou para R$ 9,2 bilhões, um crescimento de aproximadamente 2,7 vezes. Dito de outra maneira, o percentual do lucro líquido sobre a receita da venda de água e esgoto dobrou com a privatização — isto é, de cada R$ 10,00 pagos pelos usuários nas tarifas de água e esgoto, R$ 3,71 converteram-se em lucro dos acionistas. &amp;lt;tbody&amp;gt;&amp;lt;tr&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;&amp;lt;strong&amp;gt;Ano&amp;lt;/strong&amp;gt;&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;&amp;lt;strong&amp;gt;Receita de saneamento&amp;lt;/strong&amp;gt;&amp;amp;nbsp;(em R$ milhões)&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;&amp;lt;strong&amp;gt;Lucro líquido&amp;lt;/strong&amp;gt;, (em R$ milhões)&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;&amp;lt;strong&amp;gt;Lucro líquido / Receita de saneamento&amp;lt;/strong&amp;gt;&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;&amp;lt;strong&amp;gt;Despesa com Pessoal / Valor Adicionado&amp;lt;/strong&amp;gt;&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;/tr&amp;gt;&amp;lt;tr&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;&amp;lt;strong&amp;gt;2021&amp;lt;/strong&amp;gt;&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;19.866&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;2.810&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;14%&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;26%&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;/tr&amp;gt;&amp;lt;tr&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;&amp;lt;strong&amp;gt;2022&amp;lt;/strong&amp;gt;&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;21.435&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;3.591&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;17%&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;24%&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;/tr&amp;gt;&amp;lt;tr&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;&amp;lt;strong&amp;gt;2023&amp;lt;/strong&amp;gt;&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;23.645&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;3.873&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;16%&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;25%&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;/tr&amp;gt;&amp;lt;tr&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;&amp;lt;strong&amp;gt;2024&amp;lt;/strong&amp;gt;&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;24.913&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;9.988&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;40%&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;14%&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;/tr&amp;gt;&amp;lt;tr&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;&amp;lt;strong&amp;gt;2025&amp;lt;/strong&amp;gt;&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;24.761&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;8.462&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;34%&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;td&amp;gt;13%&amp;amp;nbsp;&amp;lt;/td&amp;gt;&amp;lt;/tr&amp;gt;&amp;lt;/tbody&amp;gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;*Fonte: Relatórios financeiros publicados pela Sabesp. Valores atualizados pelo IPCA para 31/12/2025.* &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;O valor adicionado mede o acréscimo de valor realizado pelo processo produtivo, isto é, o acréscimo de valor decorrente do trabalho humano. Com a privatização, a participação das despesas de pessoal no valor adicionado distribuído sofre uma forte redução. No triênio anterior à privatização, a participação média das despesas de pessoal no valor adicionado era de 25%, enquanto no biênio 2024–2025 essa participação caiu para 13,5%. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Portanto, não é discurso. Os dados mostram que a atual gestão da Sabesp priorizou esforços em maximizar a rentabilidade aos acionistas, sendo a redução das despesas com a força de trabalho própria um componente primordial para atender à prioridade do máximo lucro. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Em contrapartida, segundo informações prestadas pela companhia à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a remuneração média prevista para cada um dos seis diretores estatutários da empresa em 2025 era de aproximadamente R$ 708 mil por mês. Em 2024, a remuneração média mensal informada já não era baixa: R$ 97,5 mil. O aumento na remuneração da alta direção da companhia após a privatização foi de cerca de 626%, enquanto os trabalhadores tiveram reajuste de 5,53% em 2025 e 4,39% em 2026. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Paga com recursos arrecadados por meio das tarifas cobradas da população usuária dos serviços, essa escandalosa remuneração dos altos executivos da Sabesp privatizada está conectada com a prioridade dos acionistas em maximizar os lucros mediante redução da qualidade e da segurança dos serviços prestados aos usuários, inclusive pela compressão das despesas com a mão de obra especializada que sustentava a Sabesp. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;A intensa e acelerada compressão dos custos de pessoal está intrinsecamente conectada com a massiva perda de pessoas capacitadas durante décadas de trabalho na Sabesp pública. Do quadro de 12.300 funcionários ao final de 2022, quase 5.800 (ou 47%) foram demitidos, sem qualquer esforço de retenção ou transmissão de conhecimento. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;O resultado trágico dessa política gananciosa e imediatista está evidente em muitos episódios. Em abril de 2025, o rompimento de um interceptor de esgoto causou uma cratera de grandes proporções na Marginal do Tietê e a solução da empresa foi despejar no Rio Tietê um volume de esgotos equivalente a 77 piscinas olímpicas por dia1, interrompido somente após a grande repercussão do fato na mídia. A cratera só foi fechada um ano depois, em abril de 2026. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Em setembro de 2025, uma idosa de 79 anos morreu dentro de sua casa na cidade de Mauá, atingida por uma tubulação da empresa que desceu ladeira abaixo2. Em Mairiporã, um reservatório metálico de 2 milhões de litros colapsou totalmente provocando mais uma morte, vários feridos e dezenas de imóveis inundados. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Na região de Campinas, em Hortolândia, Paulínia e Monte Mor, as queixas de mau cheiro e gosto ruim na água distribuída foram respondidas de forma protocolar, não da maneira proativa antes praticada na Sabesp pública3. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;A falta d’água tornou-se permanente, sob um manto de “gestão de demanda noturna” que nada mais é do que a restrição da oferta de água para, artificialmente, reduzir perdas. É uma absoluta negação dos direitos humanos à água e ao esgotamento sanitário que afeta perversamente a população em situação de vulnerabilidade econômica e social. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Há um verdadeiro colapso do atendimento. Na agência reguladora estadual (Arsesp) a média mensal de reclamações contra a empresa na Grande São Paulo cresceu 70% na comparação dos primeiros trimestres de 2025 e 20264. A Sabesp lidera com larga margem o ranking de reclamações do Procon-SP em 2025 com 6.879 registros e quase 70% das queixas não atendidas, uma situação inédita na sua história5. A falta d’água e os problemas nas faturas são as principais queixas. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;A explosão de tubulação de gás no bairro do Jaguaré, na Capital, causada por obras da Sabesp, matou duas pessoas, feriu várias, destruiu 10 moradias e causou muita dor a quase duzentas pessoas que tiveram sonhos destruídos. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;O governador de São Paulo declarou, após a explosão no Jaguaré, que o volume e a segurança das obras da Sabesp “está tirando o sono”. Ante essa frase, cabe perguntar: como está o sono de quem tem uma obra da Sabesp na porta de sua moradia ou de seu comércio? &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Infelizmente, por uma equivocada privatização, a empresa criada para levar saúde e qualidade de vida para a população paulista está se tornando uma máquina altamente lucrativa, contudo mortal. &lt;br/&gt; &lt;img src=&#34;https://estaticos.opara.me/outraspalavras/uploads/2026/05/22183913/photo_4938477539135523943_w-1500x838.jpg&#34;&gt; &lt;br/&gt;
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      Imagem: Reprodução/Wired**MAIS**&lt;br/&gt;O texto a seguir é a introdução do livro&lt;br/&gt;**Perspectivas Éticas para a IA: Dilemas e Desafios”, **&lt;br/&gt;organizado por Fábio Luiz Tezini Crocco, que será publicado em breve&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Os debates sobre os efeitos sociais, em geral negativos, da Inteligência Artificial (IA) têm sido invariavelmente acompanhados por uma discussão sobre “ética” ou “uso ético”. A palavra ecoa uma preocupação pertinente de diversos setores da sociedade sobre como aproveitar socialmente eventuais benefícios dos sistemas de IA sem que os malefícios fujam do controle. Ao mesmo tempo, a palavra ética é sacada, em especial por setores empresariais, como meio para fazer avançar a ideia de que uma espécie de “bom comportamento” ou comportamento ético dos desenvolvedores e implementadores de tecnologias, que de alguma forma tornariam desnecessárias, por parte do Estado, medidas regulatórias, restritivas ou punitivas que de fato disciplinassem e controlassem o desenvolvimento e a aplicação da IA. A partir de entrevistas com empresários da Europa central, Baker-Brunnbauer (2021) aponta uma considerável dispersão de sentidos entre eles sobre as definições de ética e moral. Uma constante, no entanto, foi percepção limitada sobre ética, basicamente ligada à imagem externa da empresa relacionada à responsabilidade social. Apenas danos diretos e imediatos a consumidores foram tomados como dignos de consideração.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Um debate analítico, significativo e propositivo sobre as consequências possivelmente transformadoras das tecnologias precisa articular cenários conjunturais, conceitos claros e um posicionamento localizado objetivo (Haraway, 1995). É nesse sentido que inicialmente propomos, respectivamente, uma discussão sobre colonialismo e colonialidade digital; justiça de dados e florescimento humano; e os limites das demandas por ética se a perspectiva que se adota é a das populações minorizadas.### &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**Alinhamentos conceituais**Ainda que o termo mais frequentemente mobilizado nos debates públicos seja IA, o que está em jogo é muito mais amplo do que os sistemas generativos recentes, como o ChatGPT. O conceito de inteligência artificial, entendido como a capacidade de sistemas computacionais produzirem classificações, ordenações, inferências e conteúdos a partir de grandes volumes de dados, antecede em muito a onda atual de modelos generativos. Como argumenta Crawford (2021), a IA deve ser compreendida não como uma tecnologia isolada, mas como um sistema sociotécnico que envolve infraestruturas, cadeias de extração, trabalho humano, práticas institucionais e relações de poder que moldam tanto sua produção quanto seus efeitos. Na verdade, os arcabouços que sustentam essa forma de análise e decisão automatizada – sobretudo o aprendizado de máquina, a mineração de dados, os sistemas de recomendação e a modelagem preditiva – tornaram-se parte central da vida social ao menos desde meados dos anos 2000, com a consolidação das infraestruturas de *big data *e a consolidação do capitalismo de vigilância (Zuboff, 2015) como lógica basilar das grandes plataformas. Assim, a emergência dos modelos generativos é apenas a manifestação mais visível de um processo mais longo de intensificação da extração e processamento de dados, que reorganizam modos de conhecer, governar e interagir.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Nesse sentido, o debate sobre colonialismo e colonialidade digital é indissociável da discussão sobre IA. Qualquer discussão sobre ética precisa levar em conta os efeitos assimétricos que a digitalização vem produzindo em diferentes grupos populacionais.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Antonio Casili (2017) nos ajuda a inventariar as primeiras menções a colonialismo nos debates sobre tecnologia digital. Inicialmente o termo colonialismo passou a ser mobilizado sobretudo como metáfora crítica, procurando capturar a expansão de formas de governo capitalista próprias da economia de plataformas. Um dos usos iniciais é o de Casati (2013 *apud *Casilli, 2017), para quem o “colonialismo digital” nomeia a normatividade automática instaurada pelas empresas de tecnologia – a crença, fundada em determinismo tecnológico, de que toda a vida social deve ser mediada por sistemas conectados. Nesse enquadramento, o colonialismo refere-se a políticas agressivas e decisões econômicas discricionárias que moldam comportamentos e instituem assimetrias de poder, ainda que Casati não explore em detalhe como esses processos se enraízam em modelos de negócio, cadeias de valor e regimes de trabalho intensivo em dados. Nesse sentido, colonialismo está bastante próximo do que, mais tarde, van Dijck (2014) já chamava de dadoísmo (*dataism*), uma crença generalizada na quantificação e sua objetividade, somada a uma confiança no potencial do rastreamento de todos os tipos de comportamento humano e social através de tecnologias informacionais *on-line*. Ela aponta ainda a confiança nos agentes institucionais em torno dessas operações, tanto nos que coletam, interpretam e compartilham dados como aqueles que deveriam zelar para que essas atividades tivessem uso socialmente justo. Outro uso inicial mapeado por Casili é o de Kleiner (2016, apud Casilli, 2017), que descreve a passagem de uma internet originalmente descentralizada e comunitária para uma rede centralizada e cercada por entidades corporativas oligopolísticas. Aqui, a colonização digital designa a apropriação predatória das infraestruturas de comunicação, que reintermedeiam e homogenizam não apenas mercadorias, mas também as normas e práticas sociais que lhes dão contexto.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Como argumenta Nyabola (2023), a colonialidade digital não se expressa apenas na extração de dados ou no controle de infraestruturas, mas de forma particularmente aguda nas fronteiras, onde tecnologias biométricas, IA e vigilância criam verdadeiras “culturas de fronteira” carcerárias. É nesse espaço que as continuidades coloniais se atualizam com mais violência, projetando poder sobre populações historicamente vulnerabilizadas.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;O diagnóstico de Nyabola sobre a fronteira como um espaço privilegiado de exercício de violência digital se fortalece quando conectado à leitura estrutural de Kwet (2024). Para ele, o colonialismo digital opera por meio do controle das infraestruturas globais – cabos submarinos, data centers, sistemas operacionais, nuvens corporativas – que permitem a projeção extraterritorial de poder sobre outros Estados. Assim, o que Nyabola observa nas fronteiras, Kwet identifica no plano sistêmico: a capacidade dos EUA e das *Big Techs *de definirem as condições materiais que tornam possíveis tecnologias de vigilância e controle migratório.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;No contexto acadêmico latino-americano, ainda que já houvesse discussões relevantes sobre as assimetrias de poder entre Norte e Sul no campo digital – e, mais especificamente, sobre as tecnologias de vigilância – desde meados de 2015, mas com maior visibilidade a partir de 2019 nos simpósios da Rede Latino-Americana de Estudos em Vigilância, Tecnologia e Sociedade (Lavits), foi o texto de Couldry e Mejias (2019), *Data Colonialism: Rethinking Big Data’s Re-lation to the Contemporary Subject*, que acabou por concentrar parte significativa do debate. Os autores formulam o conceito de colonialismo de dados, tomando como ponto de partida a colonização histórica – centrada na extração de recursos naturais e humanos e na constituição das bases do capitalismo industrial – para argumentar que a atual economia de dados institui um novo regime de apropriação: não mais de terras ou corpos, mas da própria vida cotidiana, formulada como relações de dados implementadas pelas grandes plataformas, fazendo da vida cotidiana matéria-prima informacional. No entanto, embora reconheçam a persistência de práticas exploratórias que marcam a relação estrutural entre Norte e Sul, sua análise tende a deslocar essa assimetria para um plano secundário. Ao ampliar o escopo do colonialismo de dados para englobar dinâmicas que atravessam também as populações do Norte Global, o conceito perde precisão para descrever as desigualdades históricas e materiais que moldam, de forma diferenciada, as condições de extração, vulnerabilidade e dependência no Sul Global.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;No mesmo ano, 2019, o pesquisador sul-africano Michael Kwet emprega o termo colonialismo digital em um texto de influência crescente na academia e na sociedade civil brasileiras, especialmente por explicitar as profundas assimetrias políticas que estruturam o ambiente digital contemporâneo. Diferentemente de Couldry e Mejias, cujo foco recai sobretudo sobre as “relações de dados”, Kwet enfatiza que o cerne do problema está no controle das infraestruturas – e não apenas na produção ou circulação dos dados. Para ele, as formas contemporâneas de dominação digital se inscrevem em uma continuidade direta com o sistema colonial: trata-se de um poder centralizado que opera por meio do domínio de três pilares fundamentais do ecossistema digital – o *software *(controle do código, do desenvolvimento e da propriedade intelectual), o *hardware *(controle de servidores e centros de dados) e a conectividade em rede (os meios de transporte e roteamento das informações). Segundo Kwet, “colonização” significa precisamente a posse estruturante dessa infraestrutura digital, que se estende a uma série de subsistemas dependentes – comunicação, entretenimento, trabalho, transporte, educação e outros. O colonialismo digital manifesta-se, assim, na restrição das possibilidades de renda dos países e populações “colonizados”, na sua extrema dependência dos meios e recursos controlados pelo Norte Global, na imposição de uma divisão internacional do trabalho que favorece os países centrais, na manutenção de hegemonias de classe, na captura de mecanismos de ensino, formação e profissionalização, e, por fim, na administração e controle de múltiplas formas de interação social através da captura de políticas públicas, do planejamento econômico, dos serviços de inteligência e das práticas de policiamento.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Essas discussões sobre o colonialismo digital têm acontecido em um contexto que Couldry e Mejias (2023) denominam um *decolonial turn in data and technology research*, em texto em que se propõe a fazer uma genealogia do conceito de colonialismo digital. Eles lembram que, paralelamente às primeiras formulações sobre *data colonialism*, outros autores já mobilizavam lentes coloniais para analisar o digital no Sul Global. Entre esses trabalhos, destacam-se aqueles que tematizam as infraestruturas e os regimes de dependência tecnológica, como Thatcher *et al. *(2016), que aparecem como um marco inicial ao introduzir a noção de colonialismo de dados. Em 2019, Stefania Milan e Emiliano Treré, acadêmicos do sul da Europa, organizaram um dossiê intitulado Big Data from the South, na revista *Television &amp;amp; New Media*. Ainda que nem todos os textos adotassem diretamente a tese colonial, alguns trabalhos – incluindo o de Couldry e Mejias e, especialmente, o de Paula Ricaurte (2019) – ampliaram esse campo conceitual. Ricaurte desenvolve uma leitura explicitamente decolonial, interseccional e feminista do conceito de colonialismo de dados como articulado por Couldry e Mejias, apontando as continuidades entre a violência epistêmica histórica e as práticas con-temporâneas de coleta, análise e exploração de dados.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Cabe sublinhar também, na literatura internacional sobre estudos críticos de dados (*critical data studies*), as menções à ideia de justiça de dados (*data justice*). Linnet Taylor (2017) formula o conceito como a busca por “justiça na forma como as pessoas são visibilizadas, representadas e tratadas como resultado de sua produção de dados digitais”. A potencial subalternidade de grupos sociais fica evidente quando ela discute um dos pilares da justiça de dados, o qual é o engajamento com as tecnologias. Segundo ela, essa questão se cruza com a teoria pós-colonial, enfatizando como os dados são processados e analisados nos mercados nacionais e globais, posiciona os indivíduos como subalternos em relação àqueles que controlam o processamento dessas informações. Ela interliga esse debate com as discussões em torno dos obstáculos que os sistemas de dados podem significar para o florescimento humano, sendo importante na elaboração desse enquadramento um olhar para um ecossistema global que vai além das fronteiras dos países. Lyon (2021), por sua vez, enquadra o florescimento humano como algo que abrange mais do que agência ou autonomia individual, enfatizando suas dimensões inerentemente relacionais e coletivas. O florescimento humano depende de condições sociais e institucionais que não podem se sustentar em ambientes marcados por vigilância assimétrica e reprodução ou intensificação de hierarquias de poder e classificatórias. Lyon aponta que a transparência deve ser, em especial, direcionada para aqueles que controlam os sistemas de vigilância. Justiça de dados e florescimento humano aparecem como componentes inseparáveis de uma crítica mais profunda às estruturas globais que governam a vida digital.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Assim, podemos sublinhar como a “virada decolonial digital” (*digital decolonial turn*) proposta por Casili é condição necessária para uma ideia de florescimento humano no digital, um conceito eminentemente marcado pela interdependência entre grupos sociais diversos. O foco de Casili está nas relações de trabalho no digital, que ele procura visibilizar como uma categoria ampla, indo muito além do traba-lho pago ou simplesmente mal pago, abrangendo, por exemplo, atividades dos “usuários” das plataformas, os quais contribuem na produção de um valor monetário por elas apropriado. Casili marca explicitamente como é necessário reconhecer que o trabalho nas plataformas digitais é consideravelmente feito por aqueles na “base da pirâmide”, estando igualmente envolvidos nos mecanismos de extração de dados por meio do labor digital. Nessa análise, introduz ainda o conceito de colonialidade digital, construído a partir de autores latino-americanos como Aníbal Quijano (2000) e Nelson Maldonado-Torres (2007).&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Quijano (2000) propõe o conceito de colonialidade do poder, articulando as relações coloniais de dominação à expansão da acumulação capitalista na globalização. A colonialidade do poder manifesta-se na classificação da população mundial com base em critérios raciais, culturais e étnicos, criando estruturas institucionais destinadas a governar esses grupos e assegurar sua subalternização por meio da inferiorização permanente de seus modos de ser, existir e produzir conhecimento. É difícil não perceber como essas classificações históricas e estruturais acabam sendo embutidas – e muitas vezes ampliadas – pelos sistemas digitais contemporâneos, que operam classificações sociais automatizadas baseadas em vigilância. Maldonado-Torres (2007), por sua vez, desloca o foco para as experiências subjetivas ao formular a colonialidade do ser, indicando que os sujeitos modernos, herdeiros do colonialismo histórico em posições de poder ou subalternos, compartilham traços existenciais específicos. Nesses sujeitos, a experiência da existência já está atravessada pela lógica colonial, marcada por hierarquizações que atribuem humanidade plena a uns e negam-na a outros.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Deste modo, por meio das diversas facetas da experiência de colonialidade, ideais como o de florescimento humano acabam sendo entendidos como um privilégio das populações do Norte Global, na contramão do que propõe Lyon e Taylor. Cabe aqui explicitar o nosso entendimento das categorias de Norte e Sul Global, conceitos que muitas vezes são amarrados à sua dimensão geopolítica – que é relevante, mas que não dá conta da complexidade histórica das relações sociais contemporâneas. Como observa Mahler (2017), Sul Global deixou de designar apenas Estados-nação economicamente desfavorecidos, passando a nomear pessoas e espaços negativamente impactados pela globalização capitalista e, podemos acrescentar, pela colonialidade. Essas populações frequentemente estão do sul geográfico. Mas, do mesmo modo, é necessário considerar que também existem populações vulnerabilizadas em países ricos, vivendo condições precárias que as aproximam das experiências do Sul Global. São imigrantes, refugiadas ou pertencem a grupos racializados e classes precarizadas. Importante ressaltar que são justamente essas populações que, na economia de plataformas, geralmente ocupam os piores postos de trabalho, como entregadores, trabalhadores em fazendas de cliques, motoristas de aplicativo etc. Simetricamente, há grupos privilegiados em países do Sul que, por seus corpos, histórias e posições sociais, se alinham mais ao Norte Global em termos de recursos, práticas e imaginários. Voltaremos a isso, mas são justamente esses grupos os intermediários que atuam na facilitação da presença das grandes plataformas no Sul Global.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Portanto, Norte e Sul Global não descrevem apenas lugares, mas posições estruturais dentro de um sistema de desigualdades históricas produzido e atualizado pela colonialidade. Empregar esses termos é uma opção sociológica – ao destacar processos de dominação socioeconômica e materialidades ecológicas – e também política, ao assumir uma perspectiva posicionada para a escolha de categorias analíticas e de processos sociais a serem questionados. O que nos leva a indagar, de que ética se fala e que ética é possível se estamos lidando com estruturas materiais e simbólicas de extração de dados e recursos naturais, exploração de trabalho, epistemicídio e de atualização e intensificação de estruturas históricas de classificação entre aqueles com direito ao florescimento e outros não reconhecidos como humanos?### &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**Soberania digital como resposta à colonialidade**É a partir das discussões sobre colonialismo e colonialidade digital que propomos entender a emergência das discussões sobre soberania digital no Brasil. O país possui comunidade acadêmica e sociedade civil bastante engajadas, pelo menos desde o início dos anos 2000, em temas como inclusão digital; *software *livre e aberto; e direitos digitais, com ênfases distintas a depender do período tecnopolítico em análise. Esses grupos têm convergido para o tema soberania digital em parte como resposta à percepção de que as grandes plataformas digitais subordinam seus usuários a sistemas que oferecem recursos fechados e não criativos; apropriam-se e privatizam conhecimentos comuns que deveriam ser compartilhados; e violam direitos, em especial de minorias, por meio de práticas de moderação injustas e não transparentes.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;No continente europeu, as menções a soberania digital surgem em documentos oficiais da União Europeia desde meados dos 2000, mas é uma preocupação que ganha tração progressivamente a partir de 2013, com as revelações de Edward Snowden sobre o esquema global de espionagem capitaneado pelos EUA, e se intensifica no fim da década, a partir da constatação de perda de competitividade da empresas europeias frente as dos EUA (Pohle; Thiel, 2020).&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Ainda que o movimento *software *livre latino americano na década de 2000 articulasse fortemente ideais de autonomia técnica, independência tecnológica e resistência às formas hegemônicas de controle e dependência (Evangelista, 2010), o vocabulário político da época não formulava a noção de “soberania digital”, que só emergiria mais tarde, ainda que haja uma conexão clara entre os dois momentos.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;O primeiro documento brasileiro a mencionar “soberania digital” em termos de reivindicação política é a carta, endereçada ao então candidato a presidência, Luis Inácio Lula da Silva, em meados de 2022, intitulada “Programa de Emergência para a soberania digital” (CARTA SOBERANIA DIGITAL, 2022). Escrito e assinado por centenas de acadêmicos e ativistas, o documento alude a pontos convergentes ao tripé de Michel Kwet que conformariam o colonialismo digital – cabos, *hardware *e *software *–, além de mencionar a extração de dados para operações de vigilância. São mencionados na carta o sucateamento e franqueamento de estruturas nacionais a empresas estrangeiras (*big techs*), a extração de dados e a submissão da economia do país a um papel de consumidora de tecnologias. Pedem uma agenda de investimentos em tecnologia digital, afirmando que&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&amp;gt; a agenda de transformação digital brasileira precisa ser orientada ao bem-estar e ao florescimento humano de seus cidadãos, assim como ao enfrentamento da desigualdade, do racismo algorítmico e dos novos meios de segregação.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;As ambições vão além da atuação soberana do Estado, no sentido geopolítico, afirma-se que é preciso “colocar no centro de nossa proposta a expansão da tecnodiversidade, da luta contra o epistemicídio, do desbloqueio da inventividade de nosso povo”.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;No fim da década de 2010, acadêmicos ligados aos estudos das tecnologias digitais na educação e da vigilância passaram a denunciar os acordos que as universidades brasileiras progressivamente foram estabelecendo com grandes empresas de tecnologia dos EUA. Sem ouvir a comunidade acadêmica de forma consistente, aprovando documentos apressadamente, consultando apenas seu corpo técnico, reitores das principais universidades assinaram acordos de uso “gratuito” de serviços das plataformas digitais, como e-mail e armazenamento, desmobilizando as estruturas próprias das instituições. A carta cita explicitamente os estudos do Observatório Educação Vigiada, que informava que&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&amp;gt; 79% das Instituições Públicas de Ensino Superior do país têm seus e-mails institucionais alocados em servidores privados, localizados fora do país, e que são gerenciados por empresas envolvidas no lucrativo mercado de coleta, análise e comercialização de dados pessoais.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Evangelista e Gonsales (2024), a partir de novos dados publicados em estudo do CGI.br (2023) e de uma análise detalhada de parcerias firmadas por universidades e secretarias estaduais, mostram que esse processo não ocorreu de forma espontânea, mas foi facilitado por intermediários locais – gestores públicos, consultores, técnicos e lideranças educacionais que atuaram como pontes para a entrada das grandes plataformas no sistema educacional brasileiro. Trata-se do fenômeno mencionado anteriormente: segmentos sociais que vivem no Sul Global, mas cujos interesses, imaginários e práticas estão mais alinhados ao Norte Global do que ao contexto em que estão inseridos.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;O principal articulador do documento, professor da UFABC, Sergio Amadeu, deu repetidas declarações de que a ideia de soberania digital, contida na carta e em documentos posteriores, evocava o termo em analogia à reivindicação por “soberania alimentar” (achar), pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e pela Via Campesina.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&amp;gt; O movimento campesino luta pela terra, pela reforma agrária, mas também quer ter soberania alimentar. O que significa isso? Ele quer decidir o que plantar e o que comer, sem a dependência desses grandes grupos que controlam os alimentos (SBPCNET, 2025).&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Vale lembrar que, em 2005, o Fórum Internacional de *Software *Livre, organizou o “banco de sementes livres”, com o objetivo de oferecer às comunidades indígenas e quilombolas do Rio Grande do Sul sementes livres de modificações genéticas e sobre as quais não incida nenhum direito de propriedade intelectual. O conceito de soberania alimentar foi expresso pela primeira vez em documento da Via Campesina, em 1996 (Haché, 2014). Mas foi sendo aperfeiçoado ao longo dos anos, até ser descrito em documentos da sociedade civil, que chegaram a ser usados em cursos do então Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), da seguinte forma:&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&amp;gt; importam à soberania alimentar a autonomia e as condições de vida e de trabalho dos agricultores familiares e camponeses, o que se reflete na produção de alimentos de qualidade, seguros, diversos, ambientalmente sustentáveis e adequados à cultura local. Esse conceito é também relevante no que diz respeito à soberania das nações e sua autossuficiência com relação aos alimentos para consumo interno. Reme-te, ainda, à preservação de sementes tradicionais (crioulas) e da biodiversidade agrícola, além da valorização de cultura e hábitos alimentares de diversas populações (Leão, 2013).&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Ainda assim, talvez por trazer um termo (soberania) tradicionalmente ligado a discussões da ciência política referentes à autoridade política de Estados, diversos outros grupos sentiram a necessidade de complementar ou retrabalhar o termo. O capítulo brasileiro da Internet Society, em relatório de pesquisa feito com a Fundação Getúlio Vargas, afirma que existiria uma “variedade de interpretações e narrativas” relacionadas ao termo soberania digital e manifesta preocupação com relação aos efeitos sobre a governança multissetorial, apontando que “encontrar um equilíbrio entre a soberania nacional e a cooperação internacional é complexo” (Camelo, 2024). Já o Coletivo de Tecnologia e Soberania Digital do PSOL procurou adicionar a palavra popular ao termo soberania digital. Formulou um decálogo da soberania digital popular, mas descreveu o termo da seguinte maneira (a ênfase é dos autores originais):&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&amp;gt; Para nós, a Soberania Digital Popular, ou soberanias digitais populares, se trata da construção de ferramentas, infraestruturas e plataformas socialistas e livres, a criação de condições para tal, bem como a elaboração de um imaginário coletivo a partir de análises conjunturais que &amp;gt; **viabilize o rompimento do colonialismo digital e de dados**&amp;gt; . Isto é, a soberania digital popular se baseia na defesa do desenvolvimento das condições materiais e subjetivas para apropriação popular da sociedade da informação, de forma a promover autonomias científica e tecnológica orientadas ao bem comum e não que promovam a dominação social, política, econômica, cultural e geopolítica. Em síntese, a soberania digital popular se refere à criação e à adoção de tecnologias &amp;gt; **– **&amp;gt; digitais ou não &amp;gt; **– **&amp;gt; emancipadoras a partir da sabedoria popular e da ciência cidadã que sejam facilitadoras da paz, da autodeterminação dos povos, da promoção das igualdades digitais, da proteção dos direitos humanos e do meio ambiente, portan-to, socialistas e livres (PSOL, 2023).### &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**Conclusão**O levantamento do contexto acadêmico, histórico e político que levou à formulação e à adoção do termo soberania digital como reivindicação política permite reconhecer que ele constitui uma categoria analítica mais rigorosa e produtiva do que noções vagas de “ética” largamente mobilizadas no debate público sobre tecnologia. Se a ética aparece, com frequência, como um significante esvaziado – utilizado sobretudo por setores empresariais como dispositivo discursivo para evitar regulações, diluir responsabilidades ou deslocar para o plano individual problemas estruturais – a soberania digital emerge, ao contrário, de diagnósticos situados de processos que marcam a tecnopolítica no Sul Global.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;A partir de um posicionamento situado, no sentido proposto por Haraway (1995), afirmamos que o termo soberania digital, por mais que pareça polissêmico quando observado de uma distante falsa neutralidade, adquire contornos precisos quando analisado a partir de sua história de emergência no Brasil e na América Latina. Ele não nasce do setor empresarial – nacional ou internacional – tampouco de iniciativas tecnocráticas de governos, embora a estes sejam dirigidas demandas centrais. O termo é produzido, e assim deve ser entendido seu sentido, sobretudo por ativistas, pesquisadores, organizações da sociedade civil, movimentos sociais e comunidades técnicas que vivem cotidianamente os efeitos da colonialidade digital: dependência tecnológica, vigilância assimétrica, extrativismo de dados, imposição de plataformas estrangeiras, erosão das infraestruturas públicas e apagamento sistemático das capacidades criativas e inventivas dos povos do Sul.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Reconhecer essa história é fundamental porque permite compreender a soberania digital não como uma aspiração de maior controle estatal sobre redes e dados, mas como uma categoria política articulada a noções de justiça de dados, florescimento humano e tecnodiversidade. Trata-se de reivindicar não apenas a proteção de infraestruturas, mas a possibilidade de construir um futuro digital que não reencene os modos históricos de dominação que marcaram – e continuam marcando – as relações entre Norte e Sul. É por isso que a analogia com a soberania alimentar não é mero recurso retórico, mas uma operação conceitual: ambas reivindicam condições materiais e institucionais para que populações historicamente vulnerabilizadas tenham controle sobre os meios que sustentam sua vida, sua cultura e sua autonomia coletiva.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Nesse sentido, a soberania digital, pensada desde o Sul Global, recoloca no centro do debate sobre tecnologia aquilo que a retórica empresarial da “ética” obscurece: que não haverá florescimento humano possível enquanto persistirem estruturas de colonialidade que organizam o trabalho, a vigilância, os dados, as classificações e o acesso às infraestruturas. Por isso, soberania digital é uma resposta situada que vai além dos limites da ética empresarial; é uma categoria que reconhece que as injustiças do ecossistema digital não são desvios ou danos colaterais, mas atualizações de uma longa história de hierarquização e expropriação.### &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**Referências**BAKER-BRUNNBAUER, J. Management perspective of ethics in artificial intelligence. *AI &amp;amp; Ethics*, v. 1, n. 2, p. 173-181, 2021. DOI: 10.1007/s43681-020-00022-3.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;CAMELO, Ana Paula *et al. Soberania digital *[recurso eletrônico]: para quê e para quem? Análise conceitual e política do conceito a partir do contexto brasileiro. São Paulo: FGV Direito SP, 2024.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;CARTA SOBERANIA DIGITAL. *Carta pela Soberania Digital*. 2022. 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Disponível em: [https://](&lt;a href=&#34;https://www.oxfordbibliographies.com/&#34;&gt;https://www.oxfordbibliographies.com/&lt;/a&gt; )[www.oxfordbibliographies.com/](&lt;a href=&#34;https://www.oxfordbibliographies.com/&#34;&gt;https://www.oxfordbibliographies.com/&lt;/a&gt; ). Acesso em: 26 jan. 2026. MALDONADO-TORRES, Nelson. On the coloniality of being: contributions to the development of a concept. *Cultural Studies*, Londres, v. 21, n. 2–3, p. 240–270, 2007.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;NYABOLA, Nanjala. Sovereign identity crisis: What does a decolonial approach to digital technology reveal about the sovereign identity crisis? *Temple Law Review*, v. 95, n. 4, p. 593–603, 2023.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;POHLE, Julia; THIEL, Thorsten. Digital sovereignty. *Internet Policy Review*, v. 9, n. 4, 16 dez. 2020. Disponível em: [https://](&lt;a href=&#34;https://policyreview.info/concepts/digital-sovereignty&#34;&gt;https://policyreview.info/concepts/digital-sovereignty&lt;/a&gt; )[policyreview.info/](&lt;a href=&#34;https://policyreview.info/concepts/digital-sovereignty&#34;&gt;https://policyreview.info/concepts/digital-sovereignty&lt;/a&gt; )[concepts/](&lt;a href=&#34;https://policyreview.info/concepts/digital-sovereignty&#34;&gt;https://policyreview.info/concepts/digital-sovereignty&lt;/a&gt; )[digital-sovereignty](&lt;a href=&#34;https://policyreview.info/concepts/digital-sovereignty&#34;&gt;https://policyreview.info/concepts/digital-sovereignty&lt;/a&gt; ). Acesso em: 21 nov. 2025.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;PSOL – *Tecnologia e Soberania Digital*. Decálogo para a Soberania Digital Popular. [S.l.: s.n.], 2023. 1 vol. Disponível em: [https://](&lt;a href=&#34;https://psoltecnologia.com.br/wp-content/uploads/2023/09/PSOL_Decalogo_SoberaniaDigitalPopular_2023.pdf&#34;&gt;https://psoltecnologia.com.br/wp-content/uploads/2023/09/PSOL_Decalogo_SoberaniaDigitalPopular_2023.pdf&lt;/a&gt; )[psoltecnologia.com.br/](&lt;a href=&#34;https://psoltecnologia.com.br/wp-content/uploads/2023/09/PSOL_Decalogo_SoberaniaDigitalPopular_2023.pdf&#34;&gt;https://psoltecnologia.com.br/wp-content/uploads/2023/09/PSOL_Decalogo_SoberaniaDigitalPopular_2023.pdf&lt;/a&gt; )[wp-](&lt;a href=&#34;https://psoltecnologia.com.br/wp-content/uploads/2023/09/PSOL_Decalogo_SoberaniaDigitalPopular_2023.pdf&#34;&gt;https://psoltecnologia.com.br/wp-content/uploads/2023/09/PSOL_Decalogo_SoberaniaDigitalPopular_2023.pdf&lt;/a&gt; )[content/](&lt;a href=&#34;https://psoltecnologia.com.br/wp-content/uploads/2023/09/PSOL_Decalogo_SoberaniaDigitalPopular_2023.pdf&#34;&gt;https://psoltecnologia.com.br/wp-content/uploads/2023/09/PSOL_Decalogo_SoberaniaDigitalPopular_2023.pdf&lt;/a&gt; )[uploads/2023/09/PSOL_](&lt;a href=&#34;https://psoltecnologia.com.br/wp-content/uploads/2023/09/PSOL_Decalogo_SoberaniaDigitalPopular_2023.pdf&#34;&gt;https://psoltecnologia.com.br/wp-content/uploads/2023/09/PSOL_Decalogo_SoberaniaDigitalPopular_2023.pdf&lt;/a&gt; )[Decalogo_](&lt;a href=&#34;https://psoltecnologia.com.br/wp-content/uploads/2023/09/PSOL_Decalogo_SoberaniaDigitalPopular_2023.pdf&#34;&gt;https://psoltecnologia.com.br/wp-content/uploads/2023/09/PSOL_Decalogo_SoberaniaDigitalPopular_2023.pdf&lt;/a&gt; )[SoberaniaDigitalPopul](&lt;a href=&#34;https://psoltecnologia.com.br/wp-content/uploads/2023/09/PSOL_Decalogo_SoberaniaDigitalPopular_2023.pdf&#34;&gt;https://psoltecnologia.com.br/wp-content/uploads/2023/09/PSOL_Decalogo_SoberaniaDigitalPopular_2023.pdf&lt;/a&gt; ) [ar_](&lt;a href=&#34;https://psoltecnologia.com.br/wp-content/uploads/2023/09/PSOL_Decalogo_SoberaniaDigitalPopular_2023.pdf&#34;&gt;https://psoltecnologia.com.br/wp-content/uploads/2023/09/PSOL_Decalogo_SoberaniaDigitalPopular_2023.pdf&lt;/a&gt; )[2023.pdf](&lt;a href=&#34;https://psoltecnologia.com.br/wp-content/uploads/2023/09/PSOL_Decalogo_SoberaniaDigitalPopular_2023.pdf&#34;&gt;https://psoltecnologia.com.br/wp-content/uploads/2023/09/PSOL_Decalogo_SoberaniaDigitalPopular_2023.pdf&lt;/a&gt; ). Acesso em: 21 nov. 2025.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;QUIJANO, Aníbal. Coloniality of power, Eurocentrism, and Latin America. *Nepantla: Views from the South*, Durham, v. 1, n. 3, p. 533–580, 2000.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;RICAURTE, Paola. Data epistemologies, the coloniality of power, and resistance. *Television &amp;amp; New Media*, Londres, v. 20, n. 4, p. 350–365, maio 2019.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;SBPCNET – SOCIEDADE BRASILEIRA PARA O PROGRESSO DA CIÊNCIA. Brasil só terá soberania nacional quando tiver a independência de seus dados. 2025. Disponível em: &lt;a href=&#34;https://portal.sbpcnet.org.br/noticias/brasil-so-tera-soberania-nacional-quando-tiver-a-independencia-de-seus-dados/&#34;&gt;https://portal.sbpcnet.org.br/noticias/brasil-so-tera-soberania-nacional-quando-tiver-a-independencia-de-seus-dados/&lt;/a&gt;. Acesso em: 26 jan. 2026.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;TAYLOR, Linnet. What is data justice? The case for connecting digital rights and freedoms globally. *Big Data &amp;amp; Society*, Londres, v. 4, n. 2, p. 1–14, dez. 2017.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;THATCHER, Jim; O’SULLIVAN, David; MAHMOUDI, Dillon. Data colonialism through accumulation by dispossession: new metaphors for daily data. *Environment and Planning D: Society and Space*, Londres, v. 34, n. 6, p. 990–1006, 2016.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;ZUBOFF, Shoshana. *The age of surveillance capitalism: the fight for a human future at the new frontier of power*. Nova Iorque: PublicAffairs, 2019.&lt;br/&gt; &lt;img src=&#34;https://estaticos.opara.me/outraspalavras/uploads/2026/03/12175605/photo_5015247876233301012_w-1500x1000.jpg&#34;&gt; &lt;br/&gt;
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    <updated>2026-03-12T20:58:00Z</updated>
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      O ataque estadunidense à Venezuela, que resultou no assassinato de mais de 100 pessoas e no sequestro do primeiro mandatário do país, Nicolás Maduro, e da primeira-dama, Cilia Flores, representou um dos eventos mais violentos de ruptura da soberania de um país da América Latina por Washington, algo que não se via neste século. É o que informam analistas ouvidos nesta reportagem, que avaliam o cenário após o evento e suas possíveis repercussões na soberania do Brasil e da região.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;A intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela caracterizou-se pelo uso da força e da tecnologia em peso: ao menos 150 aeronaves partiram do Mar do Caribe e irromperam no território venezuelano. Boa parte dessas aeronaves foi usada para efeito de guerra eletrônica. Segundo o [*The New York Times*](&lt;a href=&#34;https://www.nytimes.com/2026/01/15/us/politics/cyberattack-venezuela-military.html&#34;&gt;https://www.nytimes.com/2026/01/15/us/politics/cyberattack-venezuela-military.html&lt;/a&gt; ), foram hackeados a rede elétrica da capital venezuelana e o sistema de defesa aérea, ação já apontada como crime de guerra pela comunidade internacional. A Rússia fez o mesmo quando da invasão da Ucrânia.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Para Sérgio Amadeu, sociólogo, pesquisador e autor do livro *As big techs e a guerra total: O complexo militar-industrial dataficado*, foi o “sequestro mais caro do mundo”. Ele explica que o ataque ao país vizinho ao Brasil combinou três fases de ação: um ataque cibernético feito pelas redes, que desabilitou a energia elétrica e centros de controle, inclusive da empresa de petróleo da Venezuela. Em seguida, passou-se à fase de ataque eletrônico, mais no espectro eletromagnético, por onde passam as ondas. Cegaram-se radares e destruiu-se a possibilidade de comunicação eletrônica. Por fim, combinou-se isso com ataques de mísseis, ataques de drones, tudo para abrir caminho a uma unidade de ação militar. “Foi uma operação baseada em dados, que exige um aparato tecnológico informacional muito preciso, muito grande”, complementa o especialista.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;A pesquisadora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (IPOL) e presidenta do Fórum para a Tecnologia Estratégica dos BRICS, Isabela Rocha, também opina que foi uma operação militar “extremamente sofisticada, que conseguiu incluir diversos setores das forças armadas junto com o setor tecnológico”.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Esse setor tecnológico é o aparato tecnológico informacional que forma parte do que Amadeu chama de “complexo industrial militar dataficado”, o qual tem se fortalecido graças ao alinhamento das big techs ao governo Trump. Tal alinhamento ficou mais explícito no segundo mandato de Donald Trump, indo desde o financiamento de sua campanha presidencial por parte das grandes corporações de tecnologia (Meta, Amazon, Google, Microsoft, Alphabet, X, OpenAI), passando por grandes jantares e projetos de desenvolvimento, até a incorporação de líderes da OpenAI, Meta e Palantir ao Exército de Reserva dos Estados Unidos, com patentes de tenente-coronel, em uma unidade batizada de Corpo Executivo de Inovação. Um movimento que mistura tecnologia, segurança e poder político para os Estados Unidos. Para Sérgio Amadeu é a “fusão das big techs com o Pentágono”. Já a pesquisadora Isabela Rocha chama esse movimento de “sofisticação e profissionalização da máquina de guerra, agora tecnológica, que foi ensaiada em Gaza e agora está sendo aplicada de maneira mais refinada, requintada, na América Latina”.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Isso serviria de alerta de que essas empresas, municiadas por suas tecnologias, não agem de forma neutra, motivadas pela inovação e pelo conhecimento, como costumam se apresentar, mas pelos interesses econômicos de seus acionistas e de seus aliados políticos. Na [nova estratégia](&lt;a href=&#34;https://static.poder360.com.br/2025/12/2025-National-Security-Strategy.pdf&#34;&gt;https://static.poder360.com.br/2025/12/2025-National-Security-Strategy.pdf&lt;/a&gt; ) de segurança nacional dos Estados Unidos afirma-se que o país buscará restaurar sua preeminência no continente e impedir que potências externas obtenham controle de ativos considerados vitais. A estratégia adota também vários princípios, sendo um dos mais notórios o da “paz por meio da força”.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Alcides Perón,  professor da FCA-Unicamp e pesquisador da Rede Latino-americana de Pesquisa em Vigilância, Tecnologia e Sociedade (Lavits), opina que devido à crise hegemônica que sofrem os Estados Unidos, e que se manifesta na dificuldade de manter seu modelo de produção e numa enorme concorrência que vai retirando as vantagens estratégicas diante da China, “a estratégia do Trump é retomar a Doutrina Monroe, estabelecer o controle e restabelecer a ordem sobre a América Latina através do domínio econômico, com produção de exclusivos comerciais — se for o caso, com a dominação militar — subjugando-a aos seus desígnios e estratégias”.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Todo esse contexto vem da perda de liderança dos Estados Unidos e pode justificar as políticas de alinhamento com as big techs como forma de manter sua vantagem estratégica produtiva na área de IA, na área de *data centers*, nas áreas de infraestruturas telecomunicacionais, completa o pesquisador.### &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**As verdadeiras motivações por trás do ataque à Venezuela**Ações como o ataque à Venezuela se encaixam como operações dos Estados Unidos não para conduzir a política internacional, e sim para manter uma máquina de guerra, na tentativa de recuperar sua hegemonia politica e economica, aponta Isabela Rocha.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Trump tem sido explicito à respeito. O presidente norteamericano afirmou em reiteradas ocasiões que a intervenção na Venezuela é vital para os interesses dos Estados Unidos e para a segurança nacional. Para Alcides Perón, as declarações do presidente norteamericano estão vinculadas ao seguinte: “segurança nacional depende de uma linha de fornecimento de petróleo direta que não passe por regiões de influência de nossos adversários. A Venezuela tem as maiores jazidas de petróleo, é onde os Estados Unidos extraem o petróleo, que, ainda que [de tipo] grosso, difícil de refinar, garante para eles fornecimento sem a ação direta de seus adversários”.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Além da mensagem explicita há também um elemento simbólico: “mostrar para a América do Sul que quem manda nas Américas são os Estados Unidos, e eles vão usar força militar para provar isso”, afirma Sérgio Amadeu.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Outra motivação sería “ter uma base importante para exercer uma nova agenda de domínio neocolonial na América Latina”, entende Renata Mielli, coordenadora do Comitê Gestor da Internet no Brasil e assessora especial do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. A Venezuela é importante porque possui, além do petróleo, uma posição estratégica. Nossa região, além do petróleo que temos aqui no Brasil, é uma região rica em terras raras e minerais críticos, “justamente a matéria-prima para o desenvolvimento mais acelerado dessa indústria de ponta, da inteligência artificial, das baterias, dos data centers” aponta a coordenadora do CGI.### &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**Soberania digital**Outro aspecto que a ingerência do Trump na Venezuela traz ao debate é a questão da soberania brasileira. Diante do alinhamento das big techs com Trump, o problema se agrava, entendendo-se que, no contexto atual, a questão passa pela soberania digital e tecnológica. Ou seja, o controle da infraestrutura crítica que permite a coleta, gestão e distribuição de dados, que possibilitam o funcionamento do ambiente digital, quase onipresente em qualquer atividade política, econômica e financeira.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Mas o Brasil não é um caso único. Boa parte dos países constituiu suas redes e sistemas informacionais de maneira profundamente dependente das infraestruturas tecnológicas globais. “Quando falamos de dependência em termos de autonomia, controle absoluto, gerenciamento total e independência em relação às redes internacionais, infraestruturas e formas de ocupação e prestação de serviços, o Brasil não tem isso. E não terá num horizonte próximo”, afirma o professor Alcides Perón.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;A coordenadora do CGI, Renata Mielli, convida-nos a analisar o contexto nacional. “Precisamos olhar a soberania digital dentro do contexto de um país cuja burguesia nunca desenvolveu um projeto de soberania em cadeias produtivas fundamentais para que a gente pudesse dar passos nessa direção”, frisa ela.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Ainda que esta classe não tenha desenvolvido um aparato tecnológico digital próprio, é difícil dizer que, no médio prazo, o Estado tenha feito sua parte — como quando da criação da Petrobras ou da Embraer, em seus respectivos momentos. Ao contrário, as pesquisas sobre o tema apontam que diferentes governos federais, estaduais e municipais, dos últimos 20 anos, têm agudizado a dependência dos serviços das big techs. O sociólogo Sérgio Amadeu alerta que no cenário geopolítico atual, onde a tecnologia digital e os dados são elementos cruciais, “o governo brasileiro permanece contratando as big techs para cuidar de dados estratégicos do Brasil”, o que coloca em risco a nossa soberania.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;No início do século, o governo Lula fez um movimento em direção à adoção de softwares livres. Mas desde o início da década de 2010, esse movimento passou a ser revertido, com a assinatura de contratos para uso de serviços das big techs. Isso se apresenta, por exemplo, na forma como os dados das universidades públicas são armazenados nos *data centers* da Alphabet/Google ou da Microsoft, assim como a infraestrutura de e-mails e os sistemas de reunião e compartilhamento de documentos. Ou ainda em como o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) faz [contratos](&lt;a href=&#34;https://www.gov.br/fnde/pt-br/assuntos/noticias/fnde-inova-na-transferencia-de-recursos-casos-de-sucesso-em-inteligencia-artificial-sao-apresentados-no-showcase-aip-bootcamp&#34;&gt;https://www.gov.br/fnde/pt-br/assuntos/noticias/fnde-inova-na-transferencia-de-recursos-casos-de-sucesso-em-inteligencia-artificial-sao-apresentados-no-showcase-aip-bootcamp&lt;/a&gt; ) com empresas como a Palantir, frequentemente criticada por lucrar com vigilância em massa e policiamento preditivo, sob o argumento de eficiência e inovação. Dessa forma, são entregues “dados, sistemas fundamentais para o país, a uma empresa que notoriamente faz parte do sistema de inteligência e desse complexo militar industrial dataficado dos Estados Unidos”, denuncia o sociólogo Sérgio Amadeu.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Para Amadeu, quando o governo brasileiro usa os sistemas das big techs, ao invés de desenvolver soluções nacionais, “está retirando inteligência e dinheiro daqui e deixando de prestigiar a inteligência coletiva local, que poderia se desenvolver”. O sociólogo afirma que o país possui uma infraestrutura universitária potente, com capacidade e técnicos suficientes para desenvolver essa atividade produtiva e ao mesmo tempo fortalezer nossa soberania.### &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**Os novos caminhos a seguir**Diante desse cenário de dependência, coerção e da nova arremetida colonial dos Estados Unidos, o que resta para países como o Brasil, e para a América Latina, em termos de construir soberania?&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Para a presidenta do Fórum para a Tecnologia Estratégica dos BRICS, Isabela Rocha, “precisamos ter soberania em todos os níveis”. Uma soberania em termos de infraestrutura dura, por exemplo, em produção de microcondutores e uma matriz energética forte. Também em nível de software, parar de depender de programas proprietários estrangeiros e passar a ter soluções de tecnologia baseadas no Brasil, que rodem em nuvens brasileiras e sejam processadas no país. E, finalmente, “cognição, buscar justamente a regulação das plataformas e da internet como um todo, para que a gente possa proteger a forma de pensar do Brasil e a nossa própria cultura”.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Amadeu trata a soberania nacional como indissociável da soberania digital. “O Estado brasileiro precisa ter uma política estratégica diferenciada, requalificar a soberania; ela passa por uma ação tecnológica, porque não há soberania nacional sem soberania digital sem soberania de dados”. O pesquisador sugere pensar o tema em seu contexto político. Ele lembra que no Brasil, se a extrema direita ganhar as eleições, a discussão sobre soberania será mais difícil. “Passaríamos de uma possibilidade de agir, como estamos sugerindo às forças que estão no governo, para uma fase de resistência, que será muito dura. E, se não podemos ter uma aliança com governo, que podemos construir? Uma aliança com a sociedade civil”, pensa Amadeu.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;O professor Alcides Perón enxerga o problema de forma similar, e recomenda “pensarmos a soberania digital para além de uma relação apenas com o Estado”. Ele acredita que a “soberania pode se articular a partir de formas populares, autônomas”. Segundo ele, é possível construir mecanismos, redes e sistemas de comunicação que, em certa medida, confrontem ou, pelo menos, desviem das formas hegemônicas, das formas dominantes. “Isso que vai começar a surgir. Conforme as políticas vão se tornando cada vez mais difíceis e as formas de comunicação, menos confiáveis, alternativas vão surgindo, e a base popular vai ser fundamental”. Quanto mais forem incentivadas formas populares de construção de redes soberanas, de mecanismos de comunicação própria, de aplicações, de sistemas e tecnologias que não passem pelos cânones estadunidenses das big techs tradicionais, maiores serão as possibilidades de criar de maneira autônoma, finaliza Perón.&lt;br/&gt; &lt;img src=&#34;https://estaticos.opara.me/outraspalavras/uploads/2026/02/06194523/615_500_ataques-dos-eua-contra-caracas176798365269614a24d185b.png&#34;&gt; &lt;br/&gt;
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    <updated>2026-02-06T22:46:02Z</updated>
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      Os sistemas biométricos têm se expandido e as identidades digitais, meios pelos quais o cidadão se identifica oficialmente e autentica documentos, representam uma nova fronteira. O Sul Global, em especial, é visto como um “campo de testes” pelas big techs que fornecem essas tecnologias, que ironicamente enfrentam resistências em seus países de origem.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Um exemplo é o que acontece na Colômbia, que recentemente implantou a Cédula Digital Colombiana, funcionando como uma identidade digital e também como autenticador. O documento integra diversos serviços governamentais, permite assinar documentos, realizar autenticação bancária e é necessário para acessar políticas públicas.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Uma parceria entre o órgão de registro civil colombiano (Registraduría Nacional del Estado Civil ou RNEC) e a empresa de francesa IDEMIA define a infraestrutura de identificação do país há mais de duas décadas. Essa relação revela uma profunda integração que transcende os interesses públicos e privados.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Nos últimos anos, a IDEMIA deu um salto gigantesco no faturamento a partir do seu modelo de negócio estabelecido no país latino-americano. Ela ganha em duas frentes: pelas consultas e pelas autenticações realizadas por órgãos governamentais e privados. Mas, além disso, também pode lucrar revendendo dados pessoais para fins de marketing para outras big techs, segundo revelaram estudos recentes.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Essa relação entre uma empresa estrangeira e órgãos governamentais colombianos foi apresentada pelos pesquisadores Joan Lopez-Solano e Juan Diego Castañeda no artigo “‘A promising playground’: IDEMIA and the digital ID infrastructuring in Colombia”, publicado no periódico *Information, Communication &amp;amp; Society.*&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;A investigação sobre o aplicativo Cédula Digital Colombiana, que apresenta as inconsistências, os riscos e as dúvidas sobre o modelo de negócio da IDEMIA foram revelados no[](&lt;a href=&#34;https://web.karisma.org.co/la-identidad-de-cedula-digital/&#34;&gt;https://web.karisma.org.co/la-identidad-de-cedula-digital/&lt;/a&gt; )[“Informe de hallazgos: Análisis de la aplicación Cédula Digital”*](&lt;a href=&#34;https://web.karisma.org.co/la-identidad-de-cedula-digital/&#34;&gt;https://web.karisma.org.co/la-identidad-de-cedula-digital/&lt;/a&gt; )**,* um relatório publicado pelo Laboratório de Segurança Digital e Privacidade da Fundação Karisma (K&#43;Lab). A Fundação Karisma é uma organização da sociedade civil que atua promovendo os direitos humanos no mundo digital, atuando a partir da Colômbia. Juan Diego Castañeda, um dos autores do artigo anteriormente citado, é um dos diretores da entidade.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**Pequeno histórico da relação entre a IDEMIA e a Colômbia**&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Na virada do século, o governo colombiano planejou implementar um sistema automatizado de identificação de impressões digitais para servir como plataforma para terceiros. Para isso, contratou a empresa francesa Safran Morpho, atualmente IDEMIA. Em 2010, iniciou-se uma fase de autenticação pela web e, finalmente, em 2019, começaram as tentativas de implementação de uma identidade digital, sem uso de documento em papel, com reconhecimento facial.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Mas foi em 2020, no contexto da pandemia global, que os contratos com a IDEMIA foram acelerados pela RNEC. A empresa foi contratada com dispensa de licitação e, em dois meses, lançou uma versão do aplicativo já existente “MobileID”, cuja versão customizada foi renomeada para “Cédula Digital Colombiana”.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Segundo a investigação da Fundação Karisma, há indícios claros de similaridade entre os dois aplicativos, tanto na documentação quanto nas evidências encontradas após uma investigação não invasiva dos softwares.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**Problemas encontrados na Cédula Digital**&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Há uma contradição no que se refere responsabilidade de quem controla os dados pessoais da Cédula Digital Colombiana. Legalmente, esse papel caberia à RNEC, mas, em nenhum momento, a IDEMIA é citada nas licenças, nas lojas de aplicativos ou documentos apresentados aos usuários. No entanto, a investigação técnica da Karisma demonstrou que há comunicação intermitente com os servidores da multinacional durante o uso do aplicativo. Além disso, há outros traços deixados que remetem aos termos de uso nos servidores da IDEMIA, permitindo, inclusive, compartilhamento de dados para fins de marketing.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Encontrar essas evidências não seria surpreendente, já que a IDEMIA foi contratada para isso pelo Estado colombiano. A questão é que existem diversos pontos obscuros nessa relação, como quem é responsável pelo tratamento e controle dos dados dos cidadãos. Toda a infraestrutura da IDEMIA, incluindo os servidores, opera em servidores da Amazon fora do território colombiano, e isso entraria em conflito com a lei de proteção de dados do país.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Essas preocupações levantam questões sobre soberania digital e sobre o colonialismo de dados, envolvendo o tratamento de dados de pessoais e até compartilhado fora de suas fronteiras. E o problema não parece estar restrito só à Colômbia. A mesma empresa já estabeleceu negócios com o Chile, Indonésia, Botsuana, Líbia, Chade, Mali, Nigéria, Quênia e Costa do Marfim. Nesses países, os governos criaram ou modificaram seus sistemas de identidade para utilizar as infraestruturas proprietárias da empresa francesa.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Isso gera dependência por meio de parcerias público-privadas para o estabelecimento dos sistemas locais de identificação e autenticação, segundo Lopez-Solano e Castañeda.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Mas há outros problemas encontrados pela investigação da Fundação Karisma. No código dos arquivos de configuração, há menção de “nível baixo” para a segurança dos dados biométricos utilizados no aplicativo. Essas evidências não são exatamente provas de qualquer vazamento de dados, mas indicam que a proteção dos dados dos cidadãos pode estar frágil na infraestrutura da IDEMIA.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Por fim, verificou-se a existência de rastreadores – conhecidos como SDKs – que permitem monitorar ações ou modos de utilização do aplicativo. Esses rastreadores não são mencionados nos termos de uso do aplicativo e, para piorar, identificou-se que alguns deles estão relacionados a serviços externos, como os do Google, indicando uma possível transferência de informações para outras big techs.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Segundo o relatório da Karisma: (…) “sua presença pode permitir o rastreamento de usuários e a transmissão de dados para empresas do setor de marketing, o que representa riscos significativos em termos de privacidade e proteção de dados pessoais.” Ainda que esses rastreadores sejam uma herança do aplicativo-mãe da empresa e que não estejam sendo utilizados, o mais razoável seria uma limpeza do código desnecessário para o fornecimento da tecnologia a um novo cliente.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**Capitalismo de vigilância no Sul Global**&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;A Cédula Digital colombiana se enquadra como um bom exemplo no eixo de pesquisa que OplanoB classifica como “capitalismo de vigilância no Sul Global”. Esse eixo foca na análise da centralidade econômica e nas razões do sucesso desse fenômeno do Capitalismo de Vigilância no Sul Global. Também permite refletir sobre as relações entre big techs do Norte, sejam elas europeias ou estadunidenses, e como essas parcerias são amplificadas em um espaço geográfico de “testes” para expandir suas tecnologias de coleta, processamento e vigilância, a despeito de da soberania dos países ou de seus cidadãos.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;A utilização de identificação digital não é uma exclusividade da Colômbia, OplanoB já reportou vários aspectos referentes ao caso da Índia e o seu robusto sistema Adahar, onde questões de limites entre público e privado também são temas de várias pesquisas, como o texto “[Sistema de identificação biométrica da Índia faz elo entre passado colonial e nacionalismo tecno-cultural](&lt;a href=&#34;https://oplanob.com/sistema-de-identificacao-biometrica-da-india-faz-elo-entre-passado-colonial-e-nacionalismo-tecno-cultural/&#34;&gt;https://oplanob.com/sistema-de-identificacao-biometrica-da-india-faz-elo-entre-passado-colonial-e-nacionalismo-tecno-cultural/&lt;/a&gt; )”. O caso latino-americano, no entanto, evidencia uma questão mais preocupante de uma empresa do Norte explorando os dados num país do Sul Global.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Para ler o artigo: &lt;a href=&#34;https://doi.org/10.1080/1369118X.2024.2302995&#34;&gt;https://doi.org/10.1080/1369118X.2024.2302995&lt;/a&gt;&lt;br/&gt; &lt;img src=&#34;https://outraspalavras.net/wp-content/uploads/2026/01/photo_5147659020729519193_x.jpg&#34;&gt; &lt;br/&gt;
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    <updated>2026-01-19T15:47:28Z</updated>
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      Ilustração: IntervozesUma revolução silenciosa está em curso enquanto você lê este artigo. A cada dia que passa, um conjunto de tecnologias conhecidas como Fediverso — uma junção de “federação” e “universo” — se expande em uma variedade de softwares, redes e, principalmente, de pessoas conectadas pelo mundo, alterando a forma como as mídias sociais são utilizadas e compreendidas.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;A principal característica desse ambiente é a descentralização executada por protocolos de comunicação em padrão aberto. Os usuários podem criar suas próprias mídias sociais ou registrar uma conta em uma das muitas plataformas instaladas em diferentes servidores (chamados de “instâncias”) e, com ela, interagir e trocar informações com todos os outros perfis dessa rede.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Imagine se você, a partir de uma conta no X, pudesse seguir e ser seguido por seus amigos que possuem contas no Facebook, Instagram e Youtube, e comentar e repostar seus textos, fotos e vídeos?&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Agora, vamos um pouco mais longe. Imagine que a sua escola, universidade, prefeitura e sindicato instalassem nos seus próprios servidores plataformas de mídias sociais similares ao X, Instagram e Youtube para os alunos e associados poderem criar suas contas e interagirem uns com os outros. Para deixar tudo mais interessante ainda, imagine que com a sua conta em uma dessas plataformas, você pode abrir um artigo em um site WordPress, comentar e repostar o conteúdo para a sua rede de forma que seu comentário fique registrado também no site. Não precisa imaginar mais, pois tudo isso já é realidade.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Assim como funcionam os serviços de e-mail, nos quais você pode ter uma conta e enviar mensagens do Hotmail para o Gmail, ou ainda, de um serviço de e-mail instalado em seu próprio servidor com o seu domínio, você pode seguir uma pessoa em uma instância diferente da sua e se comunicar com ela. A própria estrutura de identificação dos usuários no Fediverso é similar à dos e-mails, só que com uma arroba a mais antes do nome: no e-mail você se identifica como USUÁRIO@SERVIÇOdeEMAIL, no Fediverso, a sua identificação é @USUARIO@DOMINIOdaINSTÂNCIA. Por exemplo, para me encontrar nas redes federadas, procure por &lt;span itemprop=&#34;mentions&#34; itemscope itemtype=&#34;https://schema.org/Person&#34;&gt;&lt;a itemprop=&#34;url&#34; href=&#34;/npub1rh2zzqqadvk4varrj8txxhjwrrnv4r7efc2a86swmtwvmwnhmk0q5nat9m&#34; class=&#34;bg-lavender dark:prose:text-neutral-50 dark:text-neutral-50 dark:bg-garnet px-1&#34;&gt;&lt;span&gt;skarnio&lt;/span&gt; (&lt;span class=&#34;italic&#34;&gt;npub1rh2…at9m&lt;/span&gt;)&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;O Fediverso é uma “rede de redes” que conecta pessoas e comunidades a partir de muitas opções de plataformas sem algoritmos de recomendação e publicidade. Ao contrário das plataformas mantidas pelas Big Techs, no Fediverso os usuários não ficam isolados em suas próprias comunidades. Em vez de estarem subordinados às regras estabelecidas por uma única empresa — geralmente estrangeira —, as pessoas podem selecionar instâncias a partir dos seus segmentos sociais, territórios e regras e, se decidirem mudar de comunidade, elas podem levar seus seguidores com elas. Os administradores de instâncias, por sua vez, também podem escolher com quais outros servidores se conectar, permitindo que as comunidades se protejam de instâncias denunciadas no próprio Fediverso por permitirem comportamento de assédio ou desinformação.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**Uma história construída por muitas mãos**&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Mas por que essa revolução é tão silenciosa? Porque todas essas tecnologias estão sendo construídas ao longo dos anos por pessoas, para pessoas, e não por uma empresa multinacional para capturar a atenção e dados privados dos usuários. O que motiva boa parte dos desenvolvedores das redes federadas são os princípios de autonomia, transparência e governança compartilhada. A Web Social Aberta surge como alternativa às plataformas de mídia social centralizadas.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Podemos situar o início do Fediverso no ano de 2008, tendo como marco histórico o lançamento da mídia social Identi.ca como opção aberta ao Twitter. Criada pelo desenvolvedor Evan Prodromou, a Identi.ca era uma tecnologia que permitia a criação de plataformas de mídia social no formato de microblog. Logo após sua criação, muitas pessoas instalaram suas próprias plataformas nos seus servidores, mas as redes não se comunicavam entre elas. Para resolver o problema de isolamento, Evan criou o “OStatus”, o primeiro protocolo de Federação que permitiu a comunicação entre instâncias. Este fato, na minha opinião, deveria ser considerado o verdadeiro ponto de virada que originou o universo federado. Mais do que alternativas similares às plataformas centralizadas, o Fediverso se trata de um ecossistema baseado na distribuição e interoperabilidade.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Além do Ostatus, outros protocolos foram desenvolvidos e evoluíram para permitir a comunicação entre diferentes plataformas. Em 2011, foi lançada a Diaspora, desenvolvida por estudantes da Universidade de Nova York: Dan Grippi, Maxwell Salzberg, Raphael Sofaer e Ilya Zhitomirskiy e a Friendica, pelo desenvolvedor Mike Macgirvin. Em julho de 2014, o W3C — World Wide Web Consortium, a principal organização de padronização da World Wide Web — criou um Grupo de Trabalho sobre a Web Social Federada. Com base nos protocolos anteriores, o GT criou o padrão ActivityPub, publicado oficialmente em 23 de janeiro de 2018. A partir daí, esse protocolo passou a ser adotado por várias plataformas do Fediverso e expandiu ainda mais a rede de servidores federados.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Uma das maiores redes a adotar o ActivityPub foi a Mastodon, uma plataforma lançada em 2016 pelo desenvolvedor Eugen Rochko, com o objetivo de oferecer uma alternativa às redes centralizadas como o Twitter (agora X). Com um design mais próximo da experiência de usuário oferecida pelas plataformas comerciais e versões mobile mais completas, a Mastodon se diferenciou de outras mídias sociais federadas e tornou-se popular rapidamente. O protocolo utilizado no início do Mastodon era o Ostatus, que foi substituído pelo ActivityPub em 2018.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Em 2022, a crise no X/Twitter, agravada pelo anúncio da aquisição da plataforma pelo bilionário Elon Musk, gerou uma migração em massa de usuários para outras alternativas, principalmente o Mastodon, que ganhou status de plataforma mais popular do Fediverso.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Além do Mastodon, o protocolo ActivityPub passou a ser utilizado ou implantado nativamente em tecnologias como o Peertube, para vídeos, Pixelfed para imagens, e Lemmy para fóruns.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**WordPress**&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Sim, o WordPress também pode fazer parte do Fediverso. Essa integração é possibilitada pelo plugin ActivityPub, desenvolvido por Matthias Pfefferle, que transforma o site e seus autores em perfis federados, permitindo interação com usuários de redes como Mastodon. O sucesso do plugin foi tão significativo que a Automattic, empresa por trás do WordPress, o adquiriu e integrou oficialmente ao CMS, ampliando massivamente seu acesso, representando um grande marco para a expansão da rede descentralizada.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;As tecnologias citadas são apenas as mais populares, mas a cada dia surge mais uma solução nova nas mídias sociais abertas. Vale citar ainda os softwares GoToSocial, Bonfire e Mbin. Além de muitas opções de clientes de smartphones que proporcionam experiências variadas de navegação no Fediverso. Esta é outra vantagem de utilizar as redes federadas: você não precisa baixar um aplicativo específico da sua instância, mas qualquer aplicativo que tenha suporte para aquela tecnologia. Alguns aplicativos permitem, inclusive, você se logar tanto em instâncias Mastodon quanto em instâncias Friendica.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**O futuro é federado, mas em disputa**&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Que o futuro é federado, não tenha dúvidas. A disputa não é mais entre os modelos “centralizados x abertos”, e sim, qual será o principal protocolo que permitirá isso. É neste contexto que surge o AT Protocol, desenvolvido pela empresa Bluesky PB — fundada por Jay Graber com financiamento inicial de Jack Dorsey (ex-CEO do Twitter) – que também tem uma proposta de dar suporte à criação de redes federadas.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;O AT Protocol possui recursos similares ao ActivityPub, só que mais focado na portabilidade da conta do usuário. Atualmente, não existe comunicação nativa direta entre usuários dos dois protocolos, mas projetos experimentais de bridges (pontes), que tentam conectar dois ecossistemas. Também é interessante citar uma nova plataforma de mídia social que abarca ambos os protocolos ao mesmo tempo, a Wafrn.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Entre as diferenças do AT Protocol para o ActivityPub, a principal está na governança, já que seu controle é da empresa Bluesky, que define o desenvolvimento da tecnologia, enquanto o ActivityPub é mantido por uma comunidade sob as recomendações do World Wide Web Consortium (W3C). A W3C é uma organização internacional sem fins lucrativos que define os padrões fundamentais da web, como HTML, CSS e XML.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;A Bluesky não é a única iniciativa corporativa nas redes federadas. A Meta também tem prestado atenção na Web Social Aberta e testado formas de ocupar este ambiente. Em 2024, a big tech passou a integrar sua plataforma de microblog, a Threads, com o Fediverso. O evento ficou marcado com a ativação do perfil do CEO da empresa, Mark Zuckerberg, que, segundo pessoas próximas, acredita que as redes federadas podem ser “o futuro das plataformas sociais”.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;A integração da Threads com o Fediverso ainda está em fase experimental e necessita de ativação na área de configurações. Os usuários da Threads podem ser seguidos e seguir usuários do Fediverso, mas não podem repostar e comentar os posts federados. Potencialmente, 400 milhões de usuários da Threads podem se comunicar e interagir com os usuários das redes sociais abertas. “Potencialmente” porque assim que a integração foi anunciada, muitos administradores de instâncias do Fediverso bloquearam o domínio da Threads para evitar uma “poluição” de conteúdo tóxico e sem moderação a milhões de usuários.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**Uma outra internet é possível**&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Mais do que nunca, o Ocidente caminha para o que pensadores como Cédric Durand e Yanis Varoufakis chamam de Tecnofeudalismo: um sistema no qual o poder econômico exercido pelas big techs confere a seus proprietários bilionários o status de senhores feudais, reduzindo os usuários à condição de “servos” que produzem dados e valor em troca de acesso às suas plataformas. Essa realidade ficou escancarada na segunda posse de Donald Trump, na qual a presença de Mark Zuckerberg (Meta), Jeff Bezos (Amazon), Elon Musk (Tesla, SpaceX e X), Sundar Pichai (Google), Tim Cook (Apple), Shou Zi Chew (TikTok) e Sam Altman (OpenAI) ganhou mais destaque do que o presidente norte-americano.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;O alinhamento das Big Techs não só com o governo Trump, mas com outros governos e grupos da extrema-direita, é evidente e alarmante, pois através das suas regras de conduta (ou a falta delas) impõe uma agenda política que afeta democracias inteiras.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Essa expansão dos poderes das grandes empresas de tecnologia e mídia foi pauta de muitos debates do Fórum de Mídia Livre (FMML), um evento autônomo, mas integrado ao Fórum Social Mundial (FSM). Na 3º Edição do FMML Fórum, em 2012, foi elencada a necessidade da criação de “Protocolos Livres” (também chamados na época de Ecoprotocolos). Tratava-se de uma pactuação política entre os movimentos sociais que envolvia ação, método e tecnologia em torno do estabelecimento de uma comunicação autônoma e independente. O desafio apontado nestes debates era, segundo Rita Freire, da Ciranda Internacional, superar as questões técnicas para formar uma “grande rede livre e diversa para evitar o retrabalho e facilitar o encontro de soluções para problemas comuns”. Esta grande rede está materializada hoje no Fediverso. O que se precisa é que todos aqueles que ainda lutam por “outro mundo possível” a ocupem.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**Desafios**&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;O Fediverso possui muitos desafios hoje, como ter infraestruturas preparadas para o crescimento escalável, sustentabilidade e a moderação colaborativa de comunidades inteiras. A governança colaborativa muitas vezes acarreta sobrecarga de trabalho – quase sempre voluntário — de moderadores e administradores de instâncias, mas, talvez, o maior desafio que a Web Social Aberta enfrenta é a sua difusão e compreensão de um público acostumado com arquiteturas feitas para aliená-lo tecnologicamente. A barreira da cultura de uso é a maior a ser vencida no Fediverso, já que os posts são entregues por ordem cronológica, diretamente das suas contas, sem algoritmo de recomendação. A primeira vista, uma timeline em uma rede federada pode ser monótona, pois só terá o conteúdo de quem a pessoa segue. Por isso, é recomendado que, assim que a pessoa cria uma conta no Fediverso, faça um post de apresentação com as hashtags #Apresentação ou #Introdução para que a comunidade federada lhe acolha. Outra forma de encontrar pessoas é fazer uma busca por #hashtags com assuntos que lhe interessam, como #política, #Brasil, #cultura etc.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**Ideias para uma web social brasileira**&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;A população brasileira sempre foi conhecida pelo uso intenso das mídias sociais. Somos um povo comunicativo, que gosta de interação. Desde os tempos do Orkut, essa característica ficou evidente e levou o Governo Brasileiro, no início dos anos 2000 a dar mais atenção ao que se convencionou chamar de “Cultura Digital”. Uma iniciativa emblemática na área foi a plataforma CulturaDigital.Br, lançada pelo Ministério da Cultura — MinC em 2009, como um espaço colaborativo para discutir cultura, tecnologia e políticas públicas. A CulturaDigitalBR foi desenvolvida em WordPress com recursos de mídias sociais e pode ser considerada hoje como uma das primeiras redes sociais brasileiras.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Atualmente, a instituição governamental que tem dado uma atenção especial ao Fediverso tem sido o Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM-Museus). O IBRAM tem feito importantes experiências de compartilhamento de conteúdos nas redes federadas, pesquisas, e mantém uma instância Mastodon para a publicação e interação na Web Social Aberta. José Murilo Junior, que ficou à frente da plataforma CulturaDigitalBR é quem está liderando este processo no IBRAM. Ainda dentro do setor institucional, é importante destacar as experiências do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (NUDECRI) e do Labjor da Unicamp e do IBICT — Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, que criaram e estão mantendo diferentes tipos de instâncias, além de um projeto em curso para a criação de plataformas federadas na USP.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Em algumas partes do globo terrestre, instituições públicas, acadêmicas e empresas de mídia já experimentam e investem nas suas próprias redes com tecnologia federada como alternativa estratégica para Soberania Digital, como a França e Alemanha, além da própria União Europeia, visando alinhar-se com regulamentos locais como o GDPR.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;O governo brasileiro tem total condição de dar os principais exemplos de utilização das mídias sociais abertas na América Latina. Uma instância instalada em seus próprios servidores em território nacional para dialogar diretamente com a população sem que as brasileiras e brasileiros tenham que entregar seus dados para uma big tech para poderem interagir com os canais oficiais de comunicação. Uma instância governamental apenas para contas institucionais teria um custo barato e permitiria que as pessoas seguissem o dia a dia de parlamentares, gestores e acompanhassem as notícias de suas próprias instâncias ou até de seus próprios blogs.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Outra ação de baixo custo que causaria um impacto imenso seria um encaminhamento interno para que todos os sites de instituições públicas em WordPress instalassem o plugin de integração com o Fediverso e divulgassem essa nova forma de acesso ao conteúdo para a população.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Para sonhar ainda mais alto, poderíamos também imaginar uma plataforma de mídia social aberta e federada mantida pelo governo federal para uso da população. Essa plataforma poderia ser gerida como uma grande emissora pública de TV, com conselho paritário constituído de sociedade civil e governo.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Relacionar os possíveis arranjos que a Web Social Aberta pode criar com emissoras públicas é uma forma necessária para ressaltar a vocação das redes federadas para a comunicação de interesse social. As instâncias são as rádios comunitárias da internet e, assim como essas emissoras, precisam de políticas públicas que viabilizem a sustentabilidade e a infraestrutura adequada para a hospedagem em território nacional.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;As tecnologias que compõem o Fediverso permitem criar instâncias para associações, sindicatos, partidos, empresas, governos, escolas e qualquer outro tipo de grupo social, possibilitando uma diversidade imensa de usos e gestão de dados.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Neste ano, o Brasil aderiu à Aliança para Bens Públicos Digitais da ONU (Digital Public Goods Alliance), uma iniciativa lançada em 2019, para facilitar a descoberta e acelerar a implantação de tecnologias de código aberto, promovendo um ecossistema global de bens públicos digitais (DPGs) com o objetivo de alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) em todo o planeta.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;A DPGA tem divulgado algumas soluções existentes no Fediverso — como o PeerTube e o Mastodon — como Bens Públicos Digitais, além de manter uma conta nas redes federadas. Também neste ano, foi lançado no Brasil o primeiro Centro Nacional de Bens Públicos Digitais (CNBPD), resultado da articulação da Universidade Federal do Paraná (UFPR) com pesquisadores e instituições de ensino e inovação de todo o país. Seria ótimo que o CNBPD seguisse o mesmo caminho da DPGA e incluísse as soluções da Web Social Aberta entre as recomendações de softwares e plataformas.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;O Fediverso conta hoje com algumas instituições e projetos dedicados à consolidação das redes federadas, como a organização francesa Framasoft, que colabora com a manutenção e desenvolvimento do Peertube, a Social Web Fundation, dedicada ao desenvolvimento e difusão do protocolo ActivityPub, a IFTAS, uma organização de apoio a moderadores de conteúdo nas mídias sociais abertas, o FdiFórum, o maior evento online que reúne em duas edições por ano desenvolvedores, entusiastas e pesquisadores da comunidade federada internacional. No Brasil, temos a Alquimídia, a 1ª organização,  totalmente dedicada ao fortalecimento do Fediverso no Brasil.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;A Alquimídia atua em múltiplas frentes para promover as redes federadas. Suas iniciativas incluem produzir notícias, tutoriais e recomendações de instâncias, além de campanhas de conscientização voltadas tanto para gestores públicos quanto para usuários de plataformas centralizadas. A organização também é parceira da Pop Solutions na gestão de uma instância hospedada no Brasil, a Orgânica.Social.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Em uma de suas recentes contribuições, a Alquimídia propôs ao CGI.br a criação de uma categoria de domínio específica para mídias sociais, visando a utilização para a criação de instâncias federadas. A proposta foi acolhida, resultando no lançamento da extensão social.br em 1º de setembro.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**O WebSocialBR**&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Para tratar de todos os assuntos deste artigo, a Alquimídia realizará no dia 3 de dezembro, no auditório do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação – MCTI, em Brasília, o 1º WebSocialBR — Fórum do Fediverso Brasileiro, evento que propõe reunir administradores de comunidades, gestores, parlamentares, pesquisadores e comunicadores para trocar experiências e fortalecer esse ecossistema no Brasil.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;O WebSocialBR é uma atividade presencial com transmissão ao vivo e possibilidade de participação via chat pelo site [&lt;a href=&#34;https://websocial.org.br&#34;&gt;https://websocial.org.br&lt;/a&gt;](&lt;a href=&#34;https://websocial.org.br/&#34;&gt;https://websocial.org.br/&lt;/a&gt; ).&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Participe do evento, informe-se sobre a Web Social Aberta e #VemProFediverso!&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Referências:&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**ALQUIMIDIA.***Fediverso.* [S. l.], [s. d.]. Disponível em: &lt;a href=&#34;https://alquimidia.org/fediverso/&#34;&gt;https://alquimidia.org/fediverso/&lt;/a&gt;. Acesso em: 28 nov. 2025.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**ALQUIMIDIA.** *Introdução ao Fediverso: Uma Nova Era das Mídias Sociais, de Elena Rossini.* [S. l.], [s. d.]. Disponível em: &lt;a href=&#34;https://alquimidia.org/introducao-ao-fediverso-uma-nova-era-das-midias-sociais-de-elena-rossini/&#34;&gt;https://alquimidia.org/introducao-ao-fediverso-uma-nova-era-das-midias-sociais-de-elena-rossini/&lt;/a&gt;. Acesso em: 28 nov. 2025.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**BRASIL. Governo Digital.** *Brasil anuncia adesão à Aliança para Bens Públicos Digitais da ONU.* [S. l.], 2023. Disponível em: &lt;a href=&#34;https://www.gov.br/governodigital/pt-br/noticias/brasil-anuncia-adesao-a-alianca-para-bens-publicos-digitais-da-onu&#34;&gt;https://www.gov.br/governodigital/pt-br/noticias/brasil-anuncia-adesao-a-alianca-para-bens-publicos-digitais-da-onu&lt;/a&gt;. Acesso em: 28 nov. 2025.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**BRASIL. Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM).** *Produto Projeto OEI/BRA/17/003 – TR 11162.* Tayna Haudiquet. Brasília, DF: IBRAM, 2025.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**BRASIL. Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM).** *Produto Projeto OEI/BRA/17/003 – TR 11158.* Thiago Gonzaga. Brasília, DF: IBRAM, 2025.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**C3SL.** *Inédito no Brasil: Centro de Bens Públicos Digitais será lançado em novembro.* Curitiba, 14 out. 2025. Disponível em: &lt;a href=&#34;https://www.c3sl.ufpr.br/2025/10/14/inedito-no-brasil-centro-de-bens-publicos-digitais-sera-lancado-em-novembro/&#34;&gt;https://www.c3sl.ufpr.br/2025/10/14/inedito-no-brasil-centro-de-bens-publicos-digitais-sera-lancado-em-novembro/&lt;/a&gt;. Acesso em: 28 nov. 2025.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**COMCIÊNCIA.** *A comunicação da ciência no fediverso.* [S. l.], [s. d.]. Disponível em: &lt;a href=&#34;https://www.comciencia.br/a-comunicacao-da-ciencia-no-fediverso/&#34;&gt;https://www.comciencia.br/a-comunicacao-da-ciencia-no-fediverso/&lt;/a&gt;. Acesso em: 28 nov. 2025.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**CULTURA DIGITAL.** *Protocolos.* [S. l.], 2014. Disponível em: &lt;a href=&#34;https://web.archive.org/web/20140209083426/http://culturadigital.br/protocolos/&#34;&gt;https://web.archive.org/web/20140209083426/http://culturadigital.br/protocolos/&lt;/a&gt;. Acesso em: 28 nov. 2025.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**DIGITAL PUBLIC GOODS ALLIANCE.** *Home.* [S. l.], [s. d.]. Disponível em: &lt;a href=&#34;https://www.digitalpublicgoods.net/&#34;&gt;https://www.digitalpublicgoods.net/&lt;/a&gt;. Acesso em: 28 nov. 2025.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**FEDIFORUM.** *Home.* [S. l.], [s. d.]. Disponível em: &lt;a href=&#34;https://fediforum.org/&#34;&gt;https://fediforum.org/&lt;/a&gt;. Acesso em: 28 nov. 2025.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**FEDIVERSE.TV.** *Untitled.* [S. l.], [s. d.]. Disponível em: &lt;a href=&#34;https://fediverse.tv/w/p/8L9ZfWXtzn6RXdby4radnM&#34;&gt;https://fediverse.tv/w/p/8L9ZfWXtzn6RXdby4radnM&lt;/a&gt;. Acesso em: 28 nov. 2025.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**GANESHAPRESS.** *Liberdade para a mídia livre!* [S. l.], 9 fev. 2024. Disponível em: &lt;a href=&#34;https://ganeshapress.net/liberdade-para-a-midia-livre/&#34;&gt;https://ganeshapress.net/liberdade-para-a-midia-livre/&lt;/a&gt;. Acesso em: 28 nov. 2025.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**IFTAS.** *About.* [S. l.], [s. d.]. Disponível em: &lt;a href=&#34;https://about.iftas.org/&#34;&gt;https://about.iftas.org/&lt;/a&gt;. Acesso em: 28 nov. 2025.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**JOSEMURILO.** *Fediverso 2.0: o fenômeno político que desponta no Brasil.* 13 set. 2024. Disponível em: &lt;a href=&#34;https://josemurilo.com/2024/09/13/fediverso-2-0-o-fenomeno-politico-que-desponta-no-brasil/&#34;&gt;https://josemurilo.com/2024/09/13/fediverso-2-0-o-fenomeno-politico-que-desponta-no-brasil/&lt;/a&gt;. Acesso em: 28 nov. 2025.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**MUSEU BRASILIANA.** *Construindo pontes: dos museus para o fediverso.* [S. l.], [s. d.]. Disponível em: &lt;a href=&#34;https://brasiliana.museus.gov.br/construindo-pontes-dos-museus-para-o-fediverso/&#34;&gt;https://brasiliana.museus.gov.br/construindo-pontes-dos-museus-para-o-fediverso/&lt;/a&gt;. Acesso em: 28 nov. 2025.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**RITIMO.** *Liberté pour les médias libres.* [S. l.], 8 fev. 2024. Disponível em: &lt;a href=&#34;https://www.ritimo.org/Liberte-pour-les-medias-libres#intertitre2&#34;&gt;https://www.ritimo.org/Liberte-pour-les-medias-libres#intertitre2&lt;/a&gt;. Acesso em: 28 nov. 2025.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**RITIMO.** *Soberania digital e o debate dos ecoprotocolos.* [S. l.], 16 abr. 2024. Disponível em: &lt;a href=&#34;https://www.ritimo.org/Soberania-digital-e-o-debate-dos-ecoprotocolos&#34;&gt;https://www.ritimo.org/Soberania-digital-e-o-debate-dos-ecoprotocolos&lt;/a&gt;. Acesso em: 28 nov. 2025.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**WERD.IO.** *Why the open social web matters now.* [S. l.], 15 jul. 2024. Disponível em: &lt;a href=&#34;https://werd.io/why-the-open-social-web-matters-now/&#34;&gt;https://werd.io/why-the-open-social-web-matters-now/&lt;/a&gt;. Acesso em: 28 nov. 2025.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;**WORLD SOCIAL FORUM.** *Um protocolo para as redes livres.* [S. l.], [s. d.]. Disponível em: &lt;a href=&#34;https://ciranda.net/fsm-wsf/pt_brfsm-2011eomsf-dakaro-2011enwsf-2012frfsmesfsmitfsm/um-protocolo-para-as-redes-livres/?lang=pt_br&#34;&gt;https://ciranda.net/fsm-wsf/pt_brfsm-2011eomsf-dakaro-2011enwsf-2012frfsmesfsmitfsm/um-protocolo-para-as-redes-livres/?lang=pt_br&lt;/a&gt;. Acesso em: 28 nov. 2025.&lt;br/&gt; &lt;img src=&#34;https://outraspalavras.net/wp-content/uploads/2025/12/Ilustracao_texto-12-1024x1024-800x450-1.jpg&#34;&gt; &lt;br/&gt; &lt;img src=&#34;https://outraspalavras.net/wp-content/uploads/2025/12/Ilustracao_texto-12.jpg&#34;&gt; &lt;br/&gt;
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    <updated>2025-12-01T21:40:32Z</updated>
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