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2026-10-17 14:35:58 UTC
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A seguir, apresenta-se uma análise crítica do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) intitulado "MILÍCIA NO BRASIL: ASPECTOS SOCIAIS, CRIMINAIS E PROCESSUAIS", de autoria de Cláudio Antônio Ribeiro Junior (2023), sob a ótica do **materialismo histórico-dialético (Marxismo)**.

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### Análise Crítica sob a Perspectiva Marxista

O artigo científico em questão apresenta uma compilação descritiva e legalista sobre o fenômeno das milícias no Brasil. O autor estrutura o texto em torno da conceituação, distribuição geográfica, arcabouço jurídico, casos notórios (como o de Marielle Franco) e a relação de corrupção com as forças policiais. Embora o texto cumpra o papel de expor a gravidade do problema, a sua abordagem carece de uma análise profunda das raízes estruturais do fenômeno, algo que uma leitura marxista pode evidenciar.

Abaixo, destacam-se os principais pontos de crítica:

#### 1. A Falácia da "Lacuna do Estado" e a Natureza do Estado Burguês
O autor inicia o texto (Página 6 e 7) afirmando que as milícias surgem para preencher "lacunas deixadas pelo Estado em termos de segurança". Numa perspectiva marxista, essa premissa é problemática. O Estado, na sociedade capitalista, não é uma entidade neutra que "falha" ou se ausenta, mas sim um instrumento de dominação de classe que atua de acordo com os interesses do capital.

A ausência de políticas públicas eficazes nas periferias não é um acidente, mas uma escolha política do Estado neoliberal, que se retira da garantia de direitos sociais para priorizar a acumulação de capital. A milícia não preenche uma lacuna; ela **privatiza o monopólio da violência** em áreas onde o capital imobiliário e comercial precisa ser protegido e explorado. O Estado não está ausente nessas áreas; ele está presente de forma seletiva, muitas vezes através de seus próprios agentes (policiais) que atuam nas milícias, como o próprio texto admite na seção 3.1 (Página 18).

#### 2. O Fenômeno da Milícia como Empreendimento Capitalista Neoliberal
O TCC trata a milícia principalmente como uma "organização criminosa" ou um grupo "paramilitar" (Páginas 7 e 8). O marxismo, por outro lado, exige analisar o modus operandi da milícia como uma **forma específica de acumulação de capital no território**.

As milícias não apenas cobram "taxas de proteção"; elas monopolizam serviços essenciais (gás, internet, transporte alternativo, TV a cabo) e promovem a grilagem de terras e a especulação imobiliária. Isso representa uma forma de **acumulação primitiva** (ou originária) e de extração de renda da terra, típicas do capitalismo periférico. A milícia é a expressão máxima da mercantilização da segurança e da vida. Ela transforma o direito à cidade e à segurança em mercadorias, explorando a classe trabalhadora que não tem acesso aos serviços formais. O texto descreve a extorsão (Página 9), mas não a conecta à lógica de acumulação capitalista e à desigualdade estrutural da formação social brasileira.

#### 3. Corrupção Policial: Desvio Individual ou Estrutura de Classe?
O texto dedica um capítulo para falar da "corrupção policial" e da "conivência oficial" (Páginas 18 a 20). A narrativa sugere que a polícia se corrompe por desvios morais ou por uma falsa percepção de impunidade. Para o marxismo, a polícia, enquanto aparelho repressivo do Estado, existe primariamente para proteger a propriedade privada e a ordem burguesa.

Quando os policiais se envolvem com milícias, não estão necessariamente "corrompendo" a função do Estado, mas atuando como **gestores da violência estatal em favor da acumulação de capital**. A milícia é uma simbiose entre o poder público e o poder econômico ilegal/paralelo. O caso Marielle Franco (Página 20), citado no artigo, é um exemplo claro de como o Estado e as milícias (compostas por agentes do Estado) se articulam para eliminar lideranças políticas que ameaçam a hegemonia e os interesses econômicos da classe dominante local.

#### 4. A Ilusão Legalista e a Luta de Classes
Na conclusão (Página 24), o autor defende que o enfrentamento das milícias exige "ação imediata e decisiva por parte do governo", "reformas no sistema de segurança pública" e "compromisso com a justiça". A visão do TCC é reformista e institucionalista.

Sob a ótica marxista, acreditar que a atual estrutura do Judiciário, das polícias e do Parlamento (frequentemente infiltrados e financiados por milicianos) legislará e agirá efetivamente contra as milícias sem uma transformação radical da sociedade é uma ilusão. O Direito, como aponta a crítica materialista, tende a regular a violência de forma a manter a ordem social e a propriedade. O combate às milícias exige, portanto, não apenas novas leis (como as citadas nas páginas 14 a 16), mas a organização política da classe trabalhadora das periferias para exigir o controle popular sobre a segurança pública e a distribuição da riqueza.

#### 5. O Sujeito Histórico Ausente
O texto fala muito sobre "a população", "as vítimas" e "a sociedade civil" (Páginas 11 e 24), mas trata esses grupos de forma homogênea e passiva. Falta ao artigo a noção de **luta de classes**. As favelas e periferias não são apenas territórios dominados por milícias; são espaços de resistência, onde lideranças comunitárias, mães e movimentos sociais (como os citados no caso de Mãe Stella e Ada Cândida, Páginas 21 e 23) lutam diariamente. A análise marxista resgataria o protagonismo desses sujeitos históricos, que constroem alternativas de sobrevivência e resistência contra a exploração e a violência do capital encarnada nas milícias.

### Considerações Finais

O artigo de Cláudio Antônio Ribeiro Junior tem o mérito de reunir dados importantes, casos emblemáticos e denunciar as contradições jurídicas e a violência das milícias. No entanto, do ponto de vista crítico marxista, o trabalho falha ao tratar o fenômeno como um problema de "segurança pública" e "legislação" isolado.

O texto não aprofunda a análise de que a milícia é um **fenômeno econômico-político indissociável do capitalismo neoliberal periférico**. As "lacunas" do Estado são, na verdade, a reconfiguração do Estado para atender às demandas do capital, onde a violência é privatizada e transformada em mercadoria. O combate real a esse fenômeno não se dará apenas por meio de leis e do endurecimento de penas, mas por meio da luta de classes, da superação das desigualdades estruturais e da construção de um novo modelo de segurança pública baseado nos direitos humanos e no controle social popular.